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Da condenação à revelia ao desembarque em Roma: relembre a história de Cesare Battisti

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Battisti nasceu na Itália em 18 de dezembro de 1954. Ele foi condenado por quatro homicídios

Uma história que durou mais de três décadas chegou ao fim nesta segunda-feira (14). Depois de fugir da cadeia, em 1981, e se abrigar no México, na França e no Brasil, Cesare Battisti foi entregue ao governo italiano e conduzido à prisão onde deve passar o restante da vida. Ele foi condenado por ter cometido quatro homicídios.

Uma história que durou mais de três décadas chegou ao fim nesta segunda-feira (14). Depois de fugir da cadeia, em 1981, e se abrigar no México, na França e no Brasil, Cesare Battisti foi entregue ao governo italiano e conduzido à prisão onde deve passar o restante da vida. Ele foi condenado por ter cometido quatro homicídios.

Militante comunista, ele integrou grupos de guerrilha nos anos de chumbo da Itália, na década de 1970, e acabou sentenciado à revelia (termo jurídico usado quando o réu falta ao próprio julgamento). Na França e no Brasil, encontrou asilo ao recorrer a governantes próximos ideologicamente, mas, com um decreto de dezembro passado, viu seus dias de tranquilidade se encerrarem.

Encurralado, Battisti deixou a barba crescer e fugiu para a Bolívia. O disfarce, entretanto, não funcionou e ele acabou sendo desmascarado. Partindo de Santa Cruz de la Sierra, chegou nesta manhã (pelo horário de Brasília) a Roma, sem algemas. Lá, deve passar cerca de seis meses isolado em uma cela de segurança máxima.

Relembre aqui a história de Battisti

Crimes: quatro assassinatos

Foragido, Cesare Battisti foi condenado à revelia em 1993 por quatro assassinatos cometidos na Itália em 1978 e 1979. As vítimas foram um guarda, um policial, um joalheiro e um militante neofascista. O filho do joalheiro também foi atingido por um disparo e acabou ficando paraplégico. Apesar da sentença, o italiano nega envolvimento nos homicídios.

Na época, Battisti integrava uma organização de guerrilha chamada Proletários Armados Pelo Comunismo. O governo de Roma o considera protagonista dos “anos de chumbo” da violência registrada na década de 1970. Esse período não resultou em anistia, como aconteceu na ditadura militar brasileira. Battisti se diz perseguido político.

Fuga: México e França

Hoje chamado de terrorista, o italiano chegou a ser preso em 1979, mas fugiu dois anos depois. Após sair da Itália, viajou para o México e depois se mudou para a França, onde viveu por quase 15 anos. Lá, esteve sob proteção do ex-presidente socialista François Mitterrand.

Como aconteceria mais tarde no Brasil, o líder francês prometeu não extraditar Battisti. Assim, começou a refazer a vida em Paris – trabalhou como vigia em prédio e estreou na literatura policial. Com livros com traços autobiográficos, ele tratou de exílio e militâncias extremistas. Até hoje, já tem quase duas dezenas de títulos publicados.

Asilo: vida no Brasil

Quando Jacques Chirac assumiu o governo da França e mandou extraditar Cesare Battisti, o italiano resolveu fugir novamente. Era 2004 e o destino era o Brasil, então governado por Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores – com o qual tinha afinidades ideológicas. O condenado chegou ao País com identidade falsa.

Por três anos, viveu em território nacional como clandestino. Mas, três anos depois, foi detido no Rio de Janeiro. Passou quatro anos na cadeia e chegou a fazer greve de fome dizendo que preferia morrer aqui do que voltar para a Itália. Em 2009, o Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou a extradição, mas a decisão final recaiu sobre Lula.

No último dia de mandato, antes de passar a faixa presidencial para a correligionária Dilma Rousseff, o petista negou a transferência de Battisti para a Itália. Como represália ao governo brasileiro, o embaixador italiano em Brasília foi convocado de volta ao país. O terrorista só sairia da prisão em 2011, com autorização de residência permanente por aqui.

Livre, ele passou a viver na cidade de Cananeia – litoral sul do estado de São Paulo. Lá, se relacionou com uma professora e teve um filho, hoje com cinco anos. Além dele, é pai de duas mulheres que vivem na França. O nascimento do terceiro “herdeiro” foi motivo alegado por advogados para tentar barrar uma eventual extradição.

A história ainda teve duas reviravoltas. A justiça do Distrito Federal mandou deportar Battisti em 2015, o que acabou não acontecendo. Dois anos mais tarde, ele foi preso na fronteira com a Bolívia. Acusado de evasão de divisas, ele passou a ser monitorado por tornozeleira eletrônica – a medida só durou quatro meses.

Extradição: de mandado a decreto

O Brasil ainda estava em campanha eleitoral quando o então candidato à presidência Jair Bolsonaro (PSL) prometeu extraditar Cesare Battisti caso fosse eleito. O resultado nas urnas se confirmou, mas Bolsonaro não precisou cumprir a promessa. Em dezembro, o ministro do STF Luiz Fux mandou prender o italiano, que fugiu até mesmo do advogado.

A medida de Fux atendeu a pedido da procuradora-geral da República, Raquel Dodge. A PRG alegou risco de fuga, o que acabou se confirmando. Dias depois, o então presidente Michel Temer baixou um decreto determinando a extradição e um avião do governo da Itália chegou ao Brasil para buscar Battisti, que já estava bem longe.

Houve a transição de governo, a faixa presidencial foi colocada sobre o peito de Bolsonaro e, somente no último sábado (12), o terrorista foi localizado. Não pela polícia brasileira, mas por forças de segurança da Bolívia. Com visual diferente do habitual, Cesare Battisti não teve sucesso em se disfarçar. Na foto da prisão, parecia sorrir.

De Santa Cruz de la Sierra, ele foi colocado em um avião especial disponibilizado pelo Brasil. No voo estava o ministro do Interior da Itália, Matteo Salvini. Na manhã desta segunda (tarde na Europa), a aeronave pousou no Aeroporto de Roma, dando fim a um drama de três décadas. Cesare Battisti ficará isolado por seis meses e vai passar o resto da vida na cadeia.                                         Por Jovem Pan14/01/2019 13h28